Escritos sobre a morte – Parte 3 de 3: Bruno
Fev 23rd 2008Guilherme GurgelPensamentos & Recordações

O garoto que gostava de Nirvana, é assim que me lembro dele. Em 2004, quando passei na prova do CEFET (Centro Federal de Educação Tecnológica) para cursar o 1º ano do ensino médio, ele era um dos alunos da minha turma.
As aulas haviam começado em março. Nas primeiras semanas de aula, como de costume, fui conhecendo aos poucos o pessoal que sentava próximo a mim. Bruno era um deles. Alto, magro e alegre, sempre tinha um sorriso no rosto e algum comentário engraçado a fazer.
Ele adorava o Nirvana. Tinha várias fotos da banda e letras de música em seu caderno. Sabia quase de cor a tradução de Polly.
No início de maio daquele ano, fui jogar basquete lá no colégio após a aula (eu estudava à tarde). Quando cheguei à quadra, vi Bruno jogando com alguns veteranos. Cumprimentei-o e jogamos um pouco, mas logo ele disse que estava cansado e que já estava indo para casa.
Foi a última vez que o vi.
Nos dias restantes da semana ele não foi à aula, mas acho que ninguém havia se preocupado com isso, talvez pensando que ele estava doente, mas nada grave.
Contudo, na semana seguinte veio a notícia: Bruno havia morrido. Não lembro bem o que causou sua morte, mas sei que era algum tipo de infecção e que ele ficou internado apenas um dia até o momento do óbito.
Na sala de aula, apenas o silêncio. Eu olhava de um aluno para outro tentando entender o que eu acabara de ouvir, mas todos pareciam estar em choque, sem saber como agir, tentando acreditar que tudo era apenas um engano.
Conforme os lentos segundos se passaram, algumas pessoas começaram a chorar. Outras apenas ficaram em silêncio ou de cabeça abaixada.
Para mim, assim como para a maior parte dos outros alunos, era o primeiro contato tão próximo com a morte. Ficamos desnorteados com o fato de alguém tão jovem – acho que ele nem havia completado 15 anos de idade – morrer, e de forma tão fugaz.
Bruno não chegou a viver a plenitude da era da “inclusão digital” no Brasil, nem pôde fazer um curso superior (será que ele já sabia no que pretendia se formar?), tampouco teve a chance de aproveitar a juventude, encontrar uma mulher legal com quem se casar e formar uma família.
A morte não escolhe idade, sexo ou cor. É fria e avassaladora. Mas, se não existisse, não encontraríamos motivos para amar a vida, procurar aproveitar ao máximo cada segundo, cada suspiro de nossos pulmões. Apesar de nem sempre pensarmos assim, e reclamarmos de coisas fúteis como uma chuva que não pára de cair quando precisamos sair de casa, saber que o amanhã é incerto e talvez nunca chegue nos faz aproveitar cada dia de vida como se fosse o último.
Afinal, pode realmente ser o último.

