Reflexões Crônicas

Escritos sobre a morte – Parte 3 de 3: Bruno

Nirvana

O garoto que gostava de Nirvana, é assim que me lembro dele. Em 2004, quando passei na prova do CEFET (Centro Federal de Educação Tecnológica) para cursar o 1º ano do ensino médio, ele era um dos alunos da minha turma.

As aulas haviam começado em março. Nas primeiras semanas de aula, como de costume, fui conhecendo aos poucos o pessoal que sentava próximo a mim. Bruno era um deles. Alto, magro e alegre, sempre tinha um sorriso no rosto e algum comentário engraçado a fazer.

Ele adorava o Nirvana. Tinha várias fotos da banda e letras de música em seu caderno. Sabia quase de cor a tradução de Polly.

No início de maio daquele ano, fui jogar basquete lá no colégio após a aula (eu estudava à tarde). Quando cheguei à quadra, vi Bruno jogando com alguns veteranos. Cumprimentei-o e jogamos um pouco, mas logo ele disse que estava cansado e que já estava indo para casa.

Foi a última vez que o vi.

Nos dias restantes da semana ele não foi à aula, mas acho que ninguém havia se preocupado com isso, talvez pensando que ele estava doente, mas nada grave.

Contudo, na semana seguinte veio a notícia: Bruno havia morrido. Não lembro bem o que causou sua morte, mas sei que era algum tipo de infecção e que ele ficou internado apenas um dia até o momento do óbito.

Na sala de aula, apenas o silêncio. Eu olhava de um aluno para outro tentando entender o que eu acabara de ouvir, mas todos pareciam estar em choque, sem saber como agir, tentando acreditar que tudo era apenas um engano.

Conforme os lentos segundos se passaram, algumas pessoas começaram a chorar. Outras apenas ficaram em silêncio ou de cabeça abaixada.

Para mim, assim como para a maior parte dos outros alunos, era o primeiro contato tão próximo com a morte. Ficamos desnorteados com o fato de alguém tão jovem – acho que ele nem havia completado 15 anos de idade – morrer, e de forma tão fugaz.

Bruno não chegou a viver a plenitude da era da “inclusão digital” no Brasil, nem pôde fazer um curso superior (será que ele já sabia no que pretendia se formar?), tampouco teve a chance de aproveitar a juventude, encontrar uma mulher legal com quem se casar e formar uma família.

A morte não escolhe idade, sexo ou cor. É fria e avassaladora. Mas, se não existisse, não encontraríamos motivos para amar a vida, procurar aproveitar ao máximo cada segundo, cada suspiro de nossos pulmões. Apesar de nem sempre pensarmos assim, e reclamarmos de coisas fúteis como uma chuva que não pára de cair quando precisamos sair de casa, saber que o amanhã é incerto e talvez nunca chegue nos faz aproveitar cada dia de vida como se fosse o último.

Afinal, pode realmente ser o último.

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Escritos sobre a morte – Parte 2 de 3: Suicídio

Ninguém quer realmente morrer. Mesmo que algumas pessoas cheguem a desejá-la, a morte dificilmente é uma escolha, afinal nosso instinto mais primitivo – assim como o de todos os seres vivos – é o da sobrevivência.

Quando alguém se mata, há toda uma complexa rede de problemas sentimentais e psicológicos que resultaram no ato suicida, e não somente um simples impulso de querer abandonar a vida para se livrar de algum tipo de dor.

Solidão, depressão, tédio, melancolia. Sentimentos obscuros que levam ao desapego à vida. Afinal, que motivos uma pessoa teria para continuar vivendo se nada parece valer a pena, se o fato dela existir não faz diferença alguma para o resto do mundo?

Há 6 bilhões e meio de seres humanos neste planeta. Um a mais, um a menos… Que diferença faz?”.

Há tempos eu li uma matéria na revista Superinteressante sobre o assunto e lembro que nela dizia que a maior parte dos suicidas não queria se matar, mas encontraram na tentativa de morrer uma forma de chamar atenção, de mostrar que estavam sofrendo e precisavam de ajuda.

E talvez esteja aí a chave para evitar esse tipo de morte: prestar atenção aos sinais de que algo não vai bem com uma pessoa querida. O simples ato de demonstrar interesse pelos sentimentos dela já pode ajudar bastante, evitar que sentimentos ruins a dominem e a levem a um fim trágico.

Em resumo, o que falta no mundo é a gentileza, o amor, a preocupação com o bem-estar do outro sem segundas intenções. As pessoas estão se sentindo cada vez mais sozinhas, mesmo com as cidades se tornando cada vez mais cheias de gente.

Num mundo em que valemos pelo que temos, e não pelo que somos, sentimo-nos inevitavelmente vazios. Por sorte, encontramos algumas pessoas para preencherem esse espaço, as quais consideramos nossas amigas – amizade essa cada vez mais difícil de se encontrar.

Mas há quem não tem essa sorte, e vive uma vida de sofrimento, em que os dias se repetem lentamente. Quem sabe foi esse o caso daquele homem que recentemente se suicidou dirigindo por 4 km na contramão até bater de frente com um caminhão? Segundo li, ele havia acabado de se formar em Direito, o que provavelmente lhe garantiria uma vida estável no futuro.

Contudo, mesmo com motivos que para muitos seriam sinônimo de felicidade, talvez para ele nem fizesse diferença. Assim, bastou uma faísca – talvez alguma discussão com a sua ex-mulher – para levá-lo à explosão que destruiu o que lhe restava de apego à vida.

O suicídio nos abala por ser uma das formas mais diretas de demonstração da loucura que está o mundo hoje, e isso não está certo. Então, por que não mudamos?

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Escritos sobre a morte – Parte 1 de 3: Reflexões

Não importa o quanto ocupemos nossas mentes com afazeres mundanos, ou o quanto tentemos não pensar por nós mesmos (afinal é muito mais fácil se deixar levar por pensamentos pré-fabricados pela sociedade). Há sempre dois grandes mistérios perturbando nossas mentes: a vida e a morte – o começo e o fim de cada ser.

A vida, se analisada de forma superficial, não é tão complicada de se entender. Seja por meio das religiões ou da ciência, há diversas tentativas de explicação, e cada pessoa escolhe em qual acreditar.

Explicá-la se torna realmente complexo quando buscamos o seu sentido. Por que ela existe? O que havia antes de haver a vida?

Provavelmente essas questões nunca serão resolvidas. Entretanto, não é difícil viver sem saber o sentido da vida, afinal estamos vivos. O que realmente é complicado de se entender e aceitar é o outro extremo de nossa existência: a morte.

Para muitos, ela é apenas uma transição necessária e inevitável para uma outra vida – esta sem fim e baseada nas ações da vida anterior (ou seja, o céu para as pessoas boas e o inferno para as más). Para outros, com uma visão muito menos metafísica, morrer é o ponto final, e não há nada além desse ponto.

Seja qual for a crença escolhida, nenhuma pode ser comprovada de forma incontestável. Por isso, a morte é o maior mistério que existe.

Ela cala, abala, entristece, assusta. Habita nosso inconsciente como uma interrogação constante e ameaçadora. Tememo-a, mas algumas vezes a desejamos – seja por estarmos tristes e insatisfeitos com nossas vidas ou pela simples vontade de desvendar o que ela esconde.

Todos os tipos de morte são estarrecedores, principalmente quando ocorrem com pessoas próximas a nós. Mas, há um tipo específico de morte que nos abala mais ainda: a morte auto-infligida; o suicídio.

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